Entre, o mundo interior é teu!

Neste meu mundo, dentro deste coração, você apreciará reflexões sobre a obra do Impecável Carpinteiro. Ele é aquele que não cobra pelos serviços que presta; na verdade, ele pagou ao mundo o direito de aliviar o peso do madeiro sobre os ombros de seus amigos, os viajantes da existência. Meu blog é dedicado, consagrado, a Jesus, se é que terei a honra e a competência de construir algo respeitoso ao Eterno, ao que foi morto, e agora vive. Vive e intercede por gente simples; gente que procura entender corações e mentes de outras gentes simples, modestas, espontâneas.

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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

LUCAS 16 – Ao Engano, a Verdade

05/01/2011. Não passava muito das oito da noite quando cheguei da rotina dos trens ao casarão velho da Rua Alcides Queiroz onde morávamos. A propriedade pertencera ao próprio Alcides Queiroz, um homem rico e influente na economia local, e que negociava com fazendas de laranja no enorme município de Nova Iguaçu. A família era influente na Light, a companhia de luz que dera concessão à família da Dona Mirtes, uma parenta, que tinha uma linda casa, e meu pé preferido de jamelão, na mesma rua. O Seu Luiz, o marido da Dona Mirtes, um alto funcionário da Central do Brasil, vendia eletricidade, que não se estendia à Rua Lili, onde ficava a casa da minha infância.

Eles possuíam ainda contatos empregatícios com a estrada de ferro, que passava a metros das propriedades deles. Era a mesma linha de trem que eu usava para vender meus picolés e ir para a escola pública em Belford Roxo e, o ginasial, em Nova Iguaçu – o Colégio Monteiro Lobato. Mas o Seu Alcides havia morrido antes dos anos 1950, creio – e todo o seu patrimônio fora repartido entre vários herdeiros.

Meu pai comprara o Casarão, fechando negócio com a corretora loura, a Margarete, dando-lhe a casa da Rua Lili, e mais um monte de notas promissórias em garantia de pagamento. No ano de 1969, enquanto os americanos pisavam na lua, pisávamos numa casa velha infestada de cupins, morcegos e baratas. Aquela coisa não tinha gramado, nem portão, nem muro. Como não havia coleta de lixo, ganhamos o lixão privativo dos Queirozes - de papel higiênico a tomate podre, eram jogados nos fundos do Casarão, pertinho da cozinha. O Casarão era verde-abacate. As enormes portas e janelas de madeira, pintados de azul escuro, não trancavam direito – machucavam a mão da gente. E só tinha um banheiro para uma tropa de pais e filhos. O banheito ficava dentro da cozinha; tinha uma banheira amarelada, uma pia, e um vaso sanitário; não tinha janela, não.

Aprendi que um homem simples, como o meu pai, não tem estrutura psicológica para dar ouvidos a uma loura metida à lindona, e que vende conversa fiada.

IMAGEM: O enganado
http://www.wordsellinc.com/wp-content/uploads/word-sell-polar-bear-adrift.jpg

CANÇÃO: Adrift - Jack Johnson
http://www.youtube.com/watch?v=djR7m4jzNfk

FRASE: Pode-se enganar todas as pessoas por algum tempo; e algumas pessoas durante todo o tempo; mas não se pode enganar todo o mundo por todo o tempo.
– Abraham Lincoln.

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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

LUCAS 15 – Achados & Perdidos

04/01/2011. A noite ensina sabedoria... Ficando para trás, já a longa distância, das compridas passadas do meu pai, sons e vozes vindos das poucas casas com quintal, nas proximidades da linha do trem, me levaram em lembrança ao meu primeiro grande pesadelo, tido na casa da Rua Lili.

Dormíamos -- o Lando, o Zéia e eu -- meus irmãos mais velhos, no quarto dos meninos. Eu era o caçula, creio. Não me recordo do Beto ter já nascido. O Gero, certamente não. A Liete, muito menos. A Sônia, segunda mais velha, uns dez anos de idade, tinha um quarto só dela.

Não me recordo de noite anterior àquela. Talvez fosse minha primeira noite a uns quinze metros de afastamento dos meus pais dentro da casa. Eles dormiam no quarto da frente; nós, no dos fundos, junto ao quintal. Será que até a noite anterior eu dormia em berço de criança, no quarto dos meus pais?

O fato é que eu ouvia e sentia porcos fungando e roçando os estrados dos beliches no dormitório de uns 16 metros quadrados. Em breve, eles fungariam meus pés... Eu tinha certeza de que eram uns três ou quatro porcos sujos dentro daquele quarto. De repente senti um soprar frio no meu pé que estivera todo enrolado no cobertor. Dei um chute na cara ilusória de um porco e saltei da cama em disparada pelo corredor da casa em busca da proteção dos meus pais: ``o porco, o porco, o porco...'' - assim berrava o Lia. Aprendi que uma porcaria de vida tira noites de sono.

IMAGEM: Sem pesadelo
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgO-UoPllFl6zmCO7wv6XZH09smAYDc1DB5Y_JAwlK29Gsu4izA_QuLWM3tOqYQ0bJy9U4IyMiZLiQRxJ1euFKwxVB3EWiokX-gri32trsX3N0XRd5BCRAVa1MY44Kvwt1khtDn_Y3oZhE/s400/bebe+dormindo%5B1%5D.JPG

CANÇÃO: My hope, Darlene Zschech
http://www.youtube.com/watch?v=NMSd7XQE5yk

FRASE: A felicidade é uma estação intermediária entre a carência e o excesso. – Henrik Ibsen.

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LUCAS 14 - Requisito para servir

03/01/2011. Sem ser notado pelo meu pai, no escuro da linha do trem, em meio a dezenas de pessoas que haviam desembarcado e seguiam a pé, da estação para suas casas-dormitórios, fui ultrapassado pelas largas passadas dele. A timidez de ser visto pelo meu pai, portando a tiracolo a caixa de picolé, fez com que eu silenciasse na sua passagem. Favoreci, assim, seu afastamento já bem à frente, solitário, no escuro da estrada de ferro. Eu tinha 11 anos de idade; ele, 41. Certamente nossos sonhos e pensamentos distavam entre si tanto quanto nossas passadas rumo ao lar comum - à Rua Alcides Queirós, 271.

Se hoje, ele pudesse dar meia-volta, na linha do trem em Morro Agudo, e me perguntasse, eu lhe diria meus sonhos!

``- Por que, filho, você trabalha tão criança? Já não te dou cama, mesa e banho?'' - Diria meu pai.

``- Sim, mas trabalho por um sonho de vida. Meu sonho inclui não só cama, mesa e banho; mas, um jardim. Eu não tenho forças para gramar nosso quintal sozinho e plantar nele um jardim. Por isso trabalho para pagar um jardineiro, comprar a grama, as flores e instalar a água que regará o jardim da mamãe. Ela ama jardins e eu quero ajudá-la. Sonho que nosso quintal será um jardim bem florido e verdinho!''

Eu diria exatamente isso ao Seu Antônio, o meu pai que está no Céu do Pai Nosso - com jardim e tudo!

IMAGEM: Sonhar solitário. http://images01.olx.pt/ui/6/86/52/1278103963_50088452_4-JARDINEIRO-BARATO-EM-FAMALICaO-OU-ARREDORES-Outros-Servicos-1278103963.jpg

CANÇÃO: Abba, Father - Darlene Ischech (Hillsong). http://www.youtube.com/watch?v=85IE3Se6OaA

FRASE: As oportunidades normalmente se apresentam disfarçadas de trabalho árduo, e é por isso que muitos não as reconhecem. Ann Landers

CONTINUE LENDO A BÍBLIA PARA VOCÊ VER; o Senhor Jesus diz: Aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado.

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domingo, 2 de janeiro de 2011

LUCAS 13 - Deixados para trás

02/01/2011. A noite já era alta. O trem encostara na estação de meu bairro. Desembarquei do primeiro vagão com minha caixa de picolés totalmente vazia. As vendas entre Nilópolis e Comendador Soares haviam sido um sucesso. Minha casa na Rua Alcides Queirós ficava logo ali, à esquerda, a apenas um quilômetro de caminhada no sentido do trem que rumava para Austin. Quando o último vagão deixou a estação, pulei para o leito dos trilhos, para a linha do trem, a percorrer caminho na companhia dos demais que moravam naquela direção – a estrada de ferro ainda não era cercada de muros na região suburbana.

No barulho dos passos nas britas da linha, uma passada mais larga e mais rápida se intensificava. Era meu pai. Eu não o avistara no interior daquele trem. Meu pai sempre caminhava muito rápido para ser acompanhado pelos demais da família. Lembrei-me dos domingos à noite quando voltávamos da igreja para a casa da Rua Lili – ele ia lá na frente, e nós, crianças, o seguíamos bem de longe ao lado da mamãe - sempre ficávamos para trás. O meu pai costumava ser muito disciplinado para trabalhar o sustento da família. Mas havia um muro que o impedia, de Verdade, de ver as emoções que andavam no restante da família.

IMAGEM: Caminhante. http://spm.blig.ig.com.br/imagens/caminhante.jpg

FRASE: A condenação só se aproxima porque o arrependimento só se atrasa. - Elyas Medeiros.

CANÇÃO. Indelible, Broke Fraser - http://www.youtube.com/watch?v=J-1-9tLpcBw

CONTINUE LENDO A BÍBLIA PARA VOCÊ VER; o Senhor Jesus diz: Empenhe-se por entrar pela porta estreita.
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LUCAS 12 – Aparências podem matar

01/01/2011. Subindo uns 100 metros na Rua Lili, chegávamos no Morrinho, que dava para quatro outras ruas. A da esquerda é a Rua Alcides Queirós, que levaria à casa da Dona Mirtes, que tinha um pé de jamelão enorme. Dessa árvore, que contém frutas roxas, eu caí em cima do meu amigo, o Batata - que teve o braço quebrado. Nessa rua eu comprava meus picolés no bar do Seu Zé & Dona Célia. Em frente à picoleteria havia uma casa grande e velha - essa casa acabou sendo adquirida pelo meu pai numa negociação de troca pela casa da Rua Lili. Ele caiu na conversa enganosa duma corretora loura que nos prejudicou enormemente na transação -- nem minha mãe nem meus irmãos mais velhos podiam concordar com a proposta enganosa da loura. Indo pela Alcides Queirós, antes de chegar ao pé de jamelão da Dona Mirtes, há uma ruela transversal onde morava um amigo de igreja e do Jornal onde meu pai trabalhava - o nome dele era João Batista. O João Batista tinha um dente de ouro, vestia terno o tempo todo e usava chapéu Panamá de aba tamanho médio. Ele tinha ares de “barão de pés de jamelão” – a nossa fruta de pobre. Ele tinha uma porção de filhos pequenos, tinha galinhas, galos e patos soltos no quintal. A casa dele possuía só um quarto (o dele - onde ele não parava de fazer filhos na pobre esposa). A casa, que não tinha nenhuma aparência de lar cristão, possuía também uma sala, onde as crianças se amontoavam para dormir; e uma cozinha que só tinha a pedra da pia e um fogão sujo. Eles jogavam a água da cozinha pela janela da cozinha. A bicharada se alimentava na lama do quintal com os restos de comida. Os bichos freqüentavam o interior da casa. Eu juro que pisei em cocô de galinha no interior da sala onde os meninos dormiam. Mas aquela porcaria de vida, que eu hoje identifico com a hipocrisia religiosa que ainda engana a muitos, cedo acabou... Acabou com a vida da esposa do João Batista. Ela morreu no parto de mais um filho. Colocaram o caixão com o corpo dela na sala para ser velado. Nesse dia do velório, vieram umas senhoras amigas dela e limparam o cocô esparramado pelo chão da sala, antes que as pessoas chegassem com dó daquelas vidinhas indefesas e com lamento pela mãe morta. Ali eu comecei a ficar de olho na hipocrisia, na falsidade, na sujeira, e no diabo que enganam as cabecinhas ocas dentro das igrejas de fé qualquer.

CANÇÃO: ``Strangers in the night'' Iva Zanicchi: www.youtube.com/watch?v=H4guNSPcudg

FRASE: “O tempo passa e um pouco de tudo aquilo que nós chamávamos de falsidade se transforma em verdade.” Michel Proust.

IMAGEM: http://paulonapa.com.br/wp-content/uploads/2010/06/1234_01.jpg

CONTINUE LENDO A BÍBLIA PARA VOCÊ VER; o Senhor Jesus diz: Nada há encoberto que não haja de ser descoberto; nem oculto, que não haja de ser sabido.

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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

(2) O Camelô dos trens da Central do Brasil

27/12/2010. A noite ia se adensando; logo encostaríamos na estação ferroviária de Nilópolis. Parte daquela multidão de cansados escoaria do trem para suas sendas - comprar o pão para o café da madrugada, assistir à novela Antônio Maria na TV em preto e branco, dormir e voltar aos trens do dia seguinte. Eu prosseguiria mais um pouco -- passaria por Edson Passos, Mesquita, Juscelino, Nova Iguaçu, e então, Comendador Soares. Será que meu pai estaria no mesmo trem que eu? Ele desconhecia minha atividade clandestina. E se nos encontrássemos por acaso? Nem a ele nem a minha mãe eu havia pedido permissão para vender picolé no trem. O trem era lugar para camelôs de verdade, para meninos sem lar, sem futuro; meninos sem esperança... Contudo, haveria esperança para mim? As casinhas simples, apertadas, mal acabadas, dos operários, me abatiam o pensamento quando as avistava das janelas do trem. Um grão de fé em minha mente ainda levaria mais de uma década para amadurecer. O que o meu pai me instruiria, ou como reagiria, caso viesse a conhecer as reflexões de um de seus filhos do meio? Quanto custaria a libertação da timidez de uma alma? Quantas estações na vida são necessárias até cedermos à sabedoria de um pai amoroso?

28/12/2010. Prosperidade sempre rondou meus desejos e energias de viver. Pelas janelas do trem, iam ficando para trás as casinhas humildes dos operários, meus clientes de picolé, após mais um dia de camelô nos trens da Central do Brasil. Eram imagens carimbadas de dó e de lamento quanto às limitações sociais daqueles trabalhadores -- gente como meu pai. Considerava-os abandonados numa sociedade marcada pelo desdém e por um salve-se-quem-puder muito desumanos. Não haveria autoridade para proporcionar-lhes acesso a uma vida de qualidade e paz? Ao sentimento de compaixão, por aqueles meus conterrâneos, se sobrepunha o escudo da limitação psicológica -- lutar por minha própria prosperidade e, um dia, poder ajudar os de casa. Lembrei-me, então, do triste episódio das muitas varizes na perna de minha mãe quando ela e eu retornávamos da feira livre em Morro Agudo, do lado chique do bairro. Em cada mão, carregávamos uma sacola de pano cru, que continha a alça fixada num pedaço de metal. Vínhamos, então, retornando a pé pela lateral da rua de terra batida, com precaução para não sermos atropelados pelas bicicletas que predominavam como meio de transporte pessoal e de carga - e não carros como hoje. No que minha mãe evitou uma daquelas bicicletas no contra fluxo, a extremidade da fita de aço de sua sacola pinçou-lhe uma ramificação de varizes na batata da perna. Como esqueceria o sangue a escorrer pela perna de dona Rosa? Da angústia e inação de um filho menino, nessas horas, um clamor relâmpago sobe de si aos céus: ``-- Quem poderá nos socorrer?'' - pensei em meio ao desespero em meio a dor. Eu teria de testemunhar muitas outras dores e sangues de inocentes até ser capaz de compreender que nosso socorro vem do Alto.

29/12/2010. O trem encostara na estação de Nilópolis. A caixinha de picolé descera para ocupar o espaço antes preenchido pelo senhor humilde e generoso, que a apoiou ali sobre minha cabeça desde a estação de Engenho de Dentro. Os últimos picolés, já um pouco amolecidos, ainda seriam vendidos até a estação de meu bairro, pois a caixa de isopor não sofrera dano, no aperto das pessoas confinadas comigo naquele vagão. Quando a porta de um trem superlotado se abre, não há muito tempo para o desembarque, nem há ocasião para palavras de despedida entre os que ficam e os que se vão. Uma parte da massa humana escoa para seus destinos por meio daquela estação, e os que devem prosseguir a viagem são obrigados a desobstruir-lhes o caminho; caso contrário, descem ali mesmo, por empurrão. Por um relance apenas, o olhar daquele senhor cruzou o meu. O poder de um olhar generoso, sobre o rosto de uma criança assistida na dificuldade, extrai dela uma profunda nota de agradecimento: ``-- Valeu!'' - disse-lhe eu um Muito Obrigado em linguagem de camelô. Em retribuição, ele, já de costas, e confundindo-se entre os desembarcados, expressou-me o polegar característico de Ok! Aqueles segundos me ensinaram que a gente só recebe um Ok de generosidade do Alto se dissermos um Muito Obrigado de humildade daqui de Baixo.

30/12/2010. Naqueles dias, um parque de diversão se instalou no lado chique de Morro Agudo; na rua principal, a uma ou duas quadras da igreja matriz, para quem vai em direção à via Dutra. Eles ocuparam um grande terreno de esquina, à direita dessa rua. A feira livre, aos domingos, era transversal a essa rua, e fazia esquina com o terreno do parque de diversão. Foi indo à feira com a minha mãe, pelas manhãs de domingo, que eu conheci o primeiro parque de diversão de minha infância. Era um parque simples, mas tinha um mundo de coisas fantásticas. Tinha Tiro-ao-Alvo, tinha carros Bate-bate, e tinha uma Roda Gigante cheia de cadeiras igualmente espaçadas em todo a sua circunferência. Enquanto minha mãe parava nas bancas para escolher verduras, eu ficava pensando como seria ver o bairro lá do topo da roda gigante. Era uma coisa que dava certo medo, mas um medo razoável; só exigiria um pouco de coragem de mim. Não durou nada e eu separei um dinheiro da venda dos picolés para gastar no parque de diversão num domingo daqueles. Entrei na fila da bilheteria: “Em qual brinquedo você vai?” - perguntou-me o bilheteiro, um homem negro, com cara de gente boa. “Quero a roda gigante.” - respondi destemido. A visão que tive lá de cima não só valeu a pena como me despertou para ver as coisas cada vez mais lá do Alto. E ainda está valendo a pena.

31/12/2010. No caminho de volta para casa, naquele domingo à noite, após umas horas de sonho no parque de diversão, viajei em pensamento há uns cinco anos atrás, quando ainda morava na Rua Lili -- a rua com a casa de minhas primeiras memórias de infância. Dali ficaram registrados coisas muito boas; coisas que meus pais fizeram para toda a família. Minha mãe e meu pai oscilavam em torno de 35 anos de idade. Ele trabalhava no Jornal o Globo. Ela cuidava da casa e da gente esplendidamente. Eu adorava as sardinhas fritas, o feijão preto e arroz branquinho da minha mãe. Aos domingos íamos à igreja Assembléia de Deus do pastor Teotônio -- cuja família morava no quintal que fazia fundos com o nosso. A casa da Rua Lili tinha um telhado cujas águas corriam para o centro do telhado. Visto de lado, o telhado lembrava uma letra V bem aberta - as pessoas diziam que era telhado tipo Brasília, bem moderna. Era uma casa simples, e toda pintada de rosa - o nome de minha mãe. Tinha três pequenos quartos; uma sala com sofá; uma sala com mesa de refeições; uma varanda grande nos fundos onde tinha uma mesa enorme com dois bancos. Minha mãe colocava as roupas passadas sobre aquela mesa. O ferro de passar era a carvão vegetal. E eu aprendi a ler “Eva viu a uva” naquela mesa dos fundos. Na frente da casa tinha uma varandinha com persianas horizontais. O ônibus passava bem em frente da casa e fazia um poeirão na rua de terra batida. À noite eu me deitava no sofá e assistia às sombras que os faróis dos ônibus projetavam sobre o sofá da sala da frente. Eu não ligava para a poeira. A poeira cheirava bom, especialmente quando chovia! Naqueles anos eu me sentia bastante feliz porque minha mãe se esforçava para manter tudo limpinho e organizado. Não tínhamos luz elétrica; a geladeira funcionava à querosene, eu tomava banho pelado numa bacia de água aquecida pelo sol no fundo do quintal. A vida era maravilhosa! ... Até que meu pai começou a fazer coisas bem erradas! A primeira coisa ruim, que eu soube que ele fez, foi brigar com pessoas da igreja que gostavam da gente.

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(1) O Camelô dos trens da Central do Brasil

22/12/2010. Do interior dos trens da Central do Brasil, Baixada Fluminense, década de 1970, com minha caixa de picolés, que vendia a 100 cruzeiros novos, observava o mundo correndo lá fora. Logo aprenderia que também teria de correr com a minha vida.


23/12/2010. Pensei que minhas vendas bateriam um recorde; tomei o trem que saíra lotado da Central para os bairros dormitórios. Logo percebi que sofreria aperto pela má estratégia. Pendurada na altura do abdômen, minha caixinha de picolé não suportaria a pressão de gente espremida no interior do vagão. Nos primeiros krec-krec do isopor, um salvador... Um homem altíssimo, de uns 90 centímetros a mais do que eu, levantaria minha caixinha para o único espaço disponível; logo acima de minha cabeça. Ali, e só ali havia espaço para enchimento - acima de minha cabeça.

24/12/2010. Naquele aperto, como se fôssemos os próprios picolés estocados de pé na caixinha de isopor, meu corpo só voltaria a se movimentar quando o trem encostasse na próxima estação suburbana. Nilópolis estaria logo ali; a uns 5 minutos de pressão humana. Então eu respiraria com mais liberdade, e até expressaria algum alívio. Afinal, o faturamento do dia estaria assegurado, minha caixa estivera a salvo, equilibrada sobre minha cabeça, e amparada pela mão daquele senhor humilde, um homem moreno escuro, de pele ressecada, de cabelo crespo, com duas entradas de calvície já se acentuando; um tipo pedreiro como o meu pai em breve se tornaria. Um pedreiro acostumado a assentar tijolos assentou sobre minha cabeça as minhas esperanças do dia... Será que meu pai também estaria naquele trem? Ele trabalhava de impressor em uma grande oficina barulhenta, porém muito famosa. Meu pai era operador de máquinas do jornal O Globo.

25/12/2010 - Com os movimentos de pernas e braços paralisados, por pressões de todos os lados, no confinamento daquela massa humana em um vagão de trem, a um menino abaixo de um metro de estatura só lhe resta leves movimentos dos olhos; a avistar nada, senão as imagens mentais de uma tragédia na estação Comendador Soares, pertinho de minha casa em Morro Agudo, no enorme município dormitório de Nova Iguaçu. Aos sete anos de idade, vi pedaços dos muitos corpos esparramados entre trilhos, pedras e dormentes. No mais, trapos humanos ensangüentados, centenas de pessoas silenciadas entre a dor e o alívio de terem sobrevivido aos estilhaços e ferragens cortantes. Do terror da dor e do aperto humanos aprendi que o silêncio proclama mensagens de longa sabedoria. Olho atrás e entendo, a morte tinha de ser superada. A dor não condiz com a vida.

26/12/2010. O cortante atrito das rodas de aço contra os trilhos da estrada de ferro remetera-me daquelas cenas de morte para memórias de infantil felicidade. Minha mãe, uma mulher totalmente dedicada aos seus sete filhos biológicos, a uma filha adotiva, e a uma fé simples e temente a Deus, ainda tem uma irmã que vive em Barão de Juparaná, município de Valença, no sul do estado do Rio. Recordo-me de uma ou duas viagens gloriosas numa Maria-Fumaça que saía no escuro da madrugada de Japeri e alcançava aquela cidadezinha do tempo dos barões e escravos do café. Se a vida no céu for somente um prolongamento eterno daquelas emoções das viagens à casa da tia Ilda, terá valido muito a pena ter sobrevivido à disciplina do caminho estreito na fé de minha mãe.

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